Resiliência e Crescimento Económico
Por JORGE BRAGA DE MACEDO
Segunda-feira, 03 de Março de 2003

Sucedem-se os avisos de que a taxa de crescimento económico nos últimos meses possa ter sido nula ou mesmo negativa, sugerindo o regresso (consumado ou esperado) de uma recessão. Há mesmo quem anuncie uma recessão "estrutural", mais grave do que o reflexo, ainda que magnificado, do ciclo internacional.

Assim se condena a economia portuguesa pela origem e força do choque, sem atentar sequer no leque de respostas possíveis ao dito choque. Para quem receia uma recessão "estrutural", as nossas estruturas são tão rígidas que não resistem à combinação de ajustamento orçamental, concorrência europeia e insegurança internacional.

Como não tenho dúvidas em atribuir a culpa pela actual estagnação de muitas economias à incerteza que enfrentam as empresas que daí operam nos mercados internacionais, declarei ao jornalista do Expresso: «pior que a guerra é a ameaça de guerra». Mas considero impossível prever se a economia portuguesa vai sofrer mais ou menos que outras com uma guerra no Iraque - porque tal depende não tanto do choque como da resposta ao choque.

Nos anos 70, contra todas as previsões acerca dos efeitos perversos da desvalorização cambial em economias rígidas, a nossa economia evidenciou tal capacidade de adaptação aos choques petrolíferos que foi difícil desabituá-la dessa mesma desvalorização cambial e das suas consequências inflacionistas. Dito de outro modo, a resposta das economias aos choques é mais decisiva para o crescimento do que a origem e força dos próprios choques, podendo gerar habituação perversa nas empresas e nos trabalhadores que só maior resiliência pode corrigir.

Quero justificar o uso de um termo que se refere à resistência dos materiais a pressões fortes, sem embargo da ilusão física que pode alimentar em economistas desprevenidos. Na psicologia, a resiliência refere-se à capacidade, para uma pessoa confrontada com acontecimentos muito graves, de pôr em jogo mecanismos de defesa que lhe permitam aguentar e mesmo "dar a volta por cima", tirando partido da desgraça.

Sabe-se que o modo da relação entre o bébé e a mãe determina o estilo comportamental da criança em devir, a sua maneira de reagir às separações e às catástrofes. Mais, em cada um de nós existem "brasas de resiliência" que, se forem bem espevitadas por "tutores do desenvolvimento" (como lhes chama Boris Cyrulnik), permitem manter esperança ao longo do ciclo vital.

No que toca às sociedades políticas, impossibilidade de agregar perfeitamente os valores individuais levaria a não falar de resiliência. Mas o conceito pode ajudar a perceber a maneira como as liberdades política e financeira das pessoas acabam por favorecer mais o crescimento sustentado do que restrições ao mercado e à democracia.

Para tal, o termo resiliência deve interpelar o local privilegiado da mudança na economia global, que são as empresas. As tecnologias com rendimentos crescentes à escala que a globalização empresarial trouxe do centro à periferia dos mercados implicam que existem políticas susceptíveis de levar ao crescimento sustentado. Como as forças do mercado não chegam automaticamente a tal equilíbrio "bom", a globalização premeia a boa governação, tornando possível gerir a partir da periferia.

Há sem dúvida quem defenda que são acontecimentos passados que definem as pré-condições que levam a economia para o equilíbrio bom ou para outro pior, e que estas são mais favoráveis no centro do que na periferia dos mercados - quiçá o equivalente de uma "infância dourada". Mas também há quem pense que as expectativas podem ajudar e é neste último caso que a resiliência das empresas é determinante.

Se a economia se ajusta com lentidão, as remunerações do capital físico e humano seguem os rendimentos correntes e não os futuros. Mas se passar a reflectir expectativas positivas de crescimento entre economias interdependentes no espaço e no tempo, a resiliência equivale a "dar a volta por cima", tirando partido da incerteza.

Se as empresas portuguesas souberem enfrentar novos desafios e as instituições sociais e políticas suportarem a cooperação essencial à produtividade global dos factores aqui residentes, a economia nacional tornar-se-á resiliente e o crescimento económico aumentará quer haja guerra quer não. É como se as expectativas para o nosso futuro colectivo servissem de tutores do desenvolvimento.

Quando antecipou que Georges Sand ia deixá-lo mais uma vez Alfred de Musset escreveu um verdadeiro hino à resiliência: "L'homme est un apprenti, la douleur est son maître." Pouco depois, seria nomeado bibliotecário no Ministério do interior e acabaria, "imortal", na Academia Francesa.

Também a economia portuguesa sofreu choques domésticos que traumatizaram as empresas, únicos tutores do desenvolvimento que podem ajudar as economias a tornar-se resilientes e crescer. O último desses choques foi anunciado por todos os economistas, independentemente até do ciclo internacional que se atravessa.

Assim foi com a partida antecipada da companheira do poeta - que passou um inverno chuvoso em Maiorca com Frederic Chopin...