Estrelas e Quinas

23/10/95

JÁ SOMOS TODOS LUCASIANOS?

Quem antes das eleições encorajou mais imoderação salarial do que os próprios sindicatos só conseguirá moderá-los com promessas de estabilidade cambial se eles aceitarem a "crítica de Lucas".

Jorge Braga de Macedo

NOBEL da Economia em 1995 e mais 6,5% nas tabelas salariais em 1996. Que têm em comum os dois eventos? Expectativas racionais de aumento da inflação. Mas divergem nas consequências. Para o economista laureado, daí resultaria também maior desemprego. O sindicato diz que não, e acrescenta, só para si: se vier desemprego, que poupe os filiados.

Robert Lucas, de Chicago, foi o coveiro da curva de Phillips, segundo a qual aumentar a taxa de inflação "compra" uma queda da taxa de desemprego. O enterro foi há 25 anos mas ainda houve deputados socialistas que se zangaram quando, há 3, lhes dei os pesâmes no hemiciclo de São Bento. E quando os sindicatos propôem aumentos imoderados, querem ressuscitar o que Bob Lucas enterrou. Se, na casa ao lado, o novo inquilino desenhar a curva de Phillips, vem aí mais - e não menos - desemprego.

Usa-se imenso brincar com as expectativas. Então quem deixou de ler economia há 25 anos, adora geri-las. Talvez pelo sentimento de culpa que esse jejum de leitura económica indiscutívelmente faz surgir em gente bem formada, quem não conhece a "crítica de Lucas" anuncia a suspensão das propinas ainda antes de ter poder para isso. Quiçá sem saber, está a criar expectativas racionais para os conselhos de ministros da nova maioria. Tal como este item da ordem do dia do primeiro, abolir as propinas, foi abundantemente anunciado, assim será para tudo o que é "bom". Pelo contrário, o que é "mau" será escondido a todo o custo, anestesiando o contribuinte. Quando o efeito passar, o mal está feito, e lá longe Bob Lucas, que nunca escondeu as suas preocupações sociais, pensará mais uma vez que nem as promessas socialistas morrem nem a gente portuguesa almoça.

Não é fácil um homem de Yale (que não acha "giros" os ciclos económicos de equilíbrio de Chicago) apresentar o novo prémio Nobel a leitores para quem Yale, Chicago e economia são números não pessoas. Em honra aos escudetes da nossa bandeira nacional e às estrelas douradas da união europeia (tanto como às "stars and stripes" imortalizadas pelo nosso compatriota John Philip Sousa), quero chegar às expectativas pela história. A contribuição de Lucas quanto ao futuro pode estender-se ao passado. Ele só começou a fazer essa extensão há 10 anos atraz, tendo com isso atraído a atenção de um jovem economista português interessado em ultrapassar a armadilha da pobreza. E não a completou. Mas explicou que a história só diferencia as economias se o futuro não tiver força para mudar as estruturas do passado. História e expectativas são apenas duas sendas que se encontram no presente, o qual as tem de compatibilizar. As condições terminais, tal como as iniciais determinam esse encontro no presente. Basta que se acredite nelas.

Lembre-se que para Phillips (e para toda a macroeconomia keynesiana), o optimismo dos empresários leva-los a investir, com isso superando a insuficiência da despesa agregada, causadora, nos bons velhos anos trinta, de desemprego. Só havia inflação se já tivessemos chegado ao pleno emprego. Era um mundo lindo e dicotómico: a capacidade instalada no passado mantinha os preços constantes até ser plenamente utilizada, justificando um "tiramissu" orçamental (doce italiano quase tão bom como a curva de Phillips, mas como ela cheio de calorias inflacionistas) quando os privados estão anémicos. A ilusão monetária fazia o resto: patetas, os operários só viam a nota, não ligavam ao seu poder de compra: querem 6,5% quando a Europa tem 4% (por acaso o mesmo que a nossa inflação). Apelam à harmonização salarial, esquecendo que empresa não harmoniza sem aumentar os seus próprios preços e pedir ao governo para desvalorizar, levando a inflação a disparar outra vez para os dois dígitos. Já aconteceu entre nós em 1989-91, quando se comemoravam os 20 anos do enterro da curva de Phillips e o chefe do governo conhecia a "crítica de Lucas". Por maioria de razão, pode acontecer em 1996-98, excluindo-nos irremediávelmente dos benefícios da moeda única. Senhores membros do governo indigitado, lede Lucas de Chicago!

A curva de Phillips morreu - ou passou a ter uma existência efémera - quando Lucas pôs em equação que empresário escaldado de água fria tem medo. E não só empresário. Todos os agentes fazem planos para o futuro baseando-se em toda a informação obtida no passado. Se o governo gosta do "tiramissu" orçamental para fazer esquecer as agruras da vida presente e passada, as pessoas esperam défices e inflação no futuro, e sabem que os impostos deverão aumentar no futuro - ou no presente. Castigam então quem lhes dá mais impostos, embora jurando que o não vai fazer. São estas expectativas racionais, por seu turno, que os levam a eleger quem proponha regras transparentes que impeçam os impostos escondidos. Para quem pense que estamos em Chicago e que isto não se aplica à Europa, mais "humana", desengane-se. O primeiro reino europeu onde a quebra da moeda (hoje chamada desvalorização cambial e inflação) dependia da consulta às cortes, como representantes dos contribuintes, não foi qualquer nórdico ou flamengo mas sim o reino de Portugal. Mas a memória não alcança a pré-história dos Estados gerais socialistas de há meses atrás, quando a desvalorização era políticamente correcta para a velha minoria. A memória só sabe que felizmente deixou de o ser porque se virou para o futuro, com a aquiescência envergonhada da velha maioria que não soube ou não quiz valorizar a adesão ao SME de 1992 e a desinflação que se lhe seguiu graças à estabilização das expectativas inflacionistas, que a imoderação salarial em 1996 desestabiliza. Quem antes das eleições encorajou mais imoderação salarial do que os próprios sindicatos só conseguirá moderá-los com promessas de estabilidade cambial se eles aceitarem a "crítica de Lucas".

Bob prefaciou um dos seus raros trabalhos para leigos, escrito em 1980, "Regras, discricionariedade e o papel do conselheiro económico", dizendo, com o humor seco que o caracteriza: "uma das virtudes de preferir as regras à autoridade é, suponho, só se fazer um escrito destes na vida." E acrescenta, com uma modéstia igualmente característica: "no meu caso, só fiz uma fracção de escrito, porque as regras que advogo são as de Milton Friedmann."

O epígono da escola de Chicago preparara o advento da macroeconomia a médio prazo com uma frase célebre: "já somos todos keynesianos". Será que já somos também lucasianos - ou ainda acreditamos que a inflação cria emprego? A minha proposta é um aumento das tabelas salariais igual à média comunitária, mais meio ponto (no máximo) pelo aumento diferencial de produtividade, porque este foi fortemente negativo em 1994 e próximo de zero em 1995.