Economia Suave

Jorge Braga de Macedo

Mito tropical

Em companhias polidas, nomeadamente anglófonas, mencionar África constitui um verdadeiro “conversation stopper”. O mesmo se diga da menção dos “Objectivos de Desenvolvimento do Milénio”, nomeadamente o de reduzir a pobreza absoluta para metade em 2015. Objectivos que, graças aos progressos registados em países populosos como a China e a Índia, vão ser cumpridos em média mas que nenhum país ao sul do Sara deve atingir.

Quando um tema pára a conversa em companhias polidas, para quê “persistir e assinar” - como dizem os belgas? Teimo no tema por suspeitar que aqui há mito. E mais, julgo que o problema, e a solução, possam ter uma dimensão lusófona – aliás sublinhada pelas recentes visitas do chefe do governo a Moçambique e do chefe do Estado a Cabo Verde.

Será que o afro-pessimismo das companhias polidas reflecte o seu próprio acanhamento perante “o mundo, o informe mundo onde há a vida”, como lhe chamou o autor dos Passos da Cruz? Se assim for, temos o mito antigo de que a produtividade se mede em distância do equador.

O continente africano é decerto aquele com mais território nas baixas latitudes e maior prevalência de doenças como a malária. Está-se aqui a combinar um critério puramente geográfico, que é a distância do equador, com outro mais ecológico, na medida em que reflecte temperatura, precipitação e biodiversidade. Sendo África também o caso mais perfeito de baixo crescimento, pobreza generalizada e conflitos endémicos, a América Latina e a Ásia do Sul parecem vir por acréscimo ao encontro dos tristes trópicos, título de um livro famoso marcado por uma viagem pelo nordeste brasileiro durante os anos trinta.

Ainda hoje tropical evoca tópicos tristes como doenças e intempéries, por oposição aos chamados climas temperados. África, tal como Brasil, é tropical, logo condenada ao subdesenvolvimento. E mais, prossegue mito tropical, Portugal, quase subtropical, escapou de raspão, graças ao seguro europeu. Se é que escapou, rematará alguém em companhia polida, encadeando com a segunda razão: fale-me de Porto Alegre e do sul brasileiro, porque de resto lusofonia pára a conversa. Mas o mito não resiste à investigação científica tropical, por natureza interdisciplinar.

A irrelevância da latitude enquanto tal foi demonstrada há cinco anos atrás por um biólogo da UCLA Jared Diamond, cuja mensagem tarda porém em ser ouvida e ampliada por economistas, com excepção de Jeffrey Sachs responsável na Columbia pelo acompanhamento dos tais “Objectivos de Desenvolvimento do Milénio” que páram conversas de Los Angeles a New York. Combinando geografia e ecologia no seu Germes, Canhões e Aço, o biólogo observa que a orientação horizontal (leste-oeste) da Eurásia facilitou a difusão das tecnologias, nomeadamente agrárias, num vasto espaço ecológico ao passo que a orientação vertical (norte-sul) da África ou da América frustrou a difusão tecnológica através de zonas ecológicas muito distintas. Segundo o economista, ao longo dos últimos cinquenta anos, a diferença de taxas de crescimento a longo prazo da África com a Ásia oriental ultrapassa 4% por ano, mas a explicação não vem da latitude. Para já a história retira 1% do poder explicativo. Ou seja, dado o PIB inicial relativo à Ásia oriental, a taxa de crescimento seria cerca de 1% acima da observada. Estatisticamente explica-se uma diferença de 5% na qual as variáveis referentes à educação secundária e às políticas, nomeadamente a abertura comercial e a governação pública, explicam 2%. Os restantes 3% (ou seja 300 pontos de base) distribuem-se como segue. A malária vale 100, a esperança de vida 120, a distância ao mar 70 e a latitude tropical 10.

A latitude é um mito mas a África precisa que casos auspiciosos, como Moçambique e Cabo Verde, não parem conversas. Se não for em nome dos “Objectivos de Desenvolvimento do Milénio”, ao menos que seja em nome do bem comum lusófono.