Enfim Ned!

Jorge Braga de Macedo

Rompia a madrugada quando abri o jornal no Aeroporto de Roissy e pensei ao ler a notícia “Enfim Ned!”. É com gosto que opino para o Sol sobre o Prémio Nobel em Economia de 2006, o Professor Edmund “Ned” Phelps, da Universidade de Columbia em New York.

Até porque, azar dos Távoras, na véspera tinha dado uma aula sobre “o macroeconomista como cientista e engenheiro” e não aproveitei a oportunidade de salientar a contribuição da “micro-macro” de Phelps. Ora ela foi decisiva na passagem da primeira onda (Keynesiana) para a segunda (expectativas racionais) bem como o seu regresso em força na terceira onda a que se chama por vezes a “nova síntese” neoclássica, em homenagem a Hicks, outro Nobel.

Quem estudava em Yale nos anos setenta aprendia com os seus professores modelos da economia, decorava com Tobin (mais um Nobel), o diagrama ISLM de Hicks e entusiasmava-se a seguir o debate entre Tobin e Frieman, Nobel de Chicago. Mas também apreendia a ilustre história da escola lançada nos anos vinte por Irving.Fisher, e dos alunos mais distintos como Ned Phelps, que se doutorou em 1959. Ned era especial porque parecia, na expressão consagrada. “dormir com o inimigo”. Por altura do ataque de Friedman à curva chamada de Phillips tão querida dos keynesianos, demonstrou que ela era vertical. Demonstrou que trabalhadores e consumidores racionais iam adivinhar que, ao diminuir o desemprego, o governo iria tolerar o aumento da inflação. Um tempo funcionava a relação inversa que Phillips descobrira, mas no longo prazo (em que Keynes dizia estarmos todos mortos), deixar de haver relação: aumentava tanto a inflação como o desemprego. Nos anos setenta era esta a realidade palpável, ainda me lembro de Sglitiz (Nobel), desenhar no quadro uma curva de Phillips positivamente inclinada: pensámos que estava a brincar! Estava a ilustrar o fenómeno da estagflação, em que uma curva de Phillips (negativamente inclinada) se afasta para longe da origem. Era Stiglitz a ir mais longe do que Friedman-Phelps....

Passaram quarenta anos e Phelps trabalhou em todas as áreas da macroeconomia, devendo-se-lhe a celebrada regra de ouro, que, no quadro do modelo de crescimento de Solow (Nobel), determina a taxa de poupança óptima, ou seja aquela que maximiza o consumo sustentável.

Nos últimos anos, os amigos de Ned em New York, como Roman Frydman e Pentti Kouri, ou em Paris como Jean-Paul Fitoussi, escondiam mal a impaciência: quando chegaria o telefonema do comité Nobel? Explico assim a minha própria inépcia pedagógica: para citar Phelps junto com os outros Nobel tinha que acrescentar que nunca mais vinha o prémio e não me apetecia resmungar contra o comité. Sempre cool, o próprio Ned na entrevista ao Financial Times que li ao embarcar para Lisboa na madrugada seguinte se revelava surpreso por o seu Nobel se ter realizado. Passou, como ele disse, a ser uma questão do passado. Depois de tantos anos de expectativa racional dos seus amigos e admiradores...