Economia Suave

Espalhar Rs por toda a parte

Jorge Braga de Macedo

Vamos comemorar o trigésimo aniversário da revolução de Abril, quarta do nome durante o século XX. Trintenas como esta evocam em mim referências radicais. È a letra de Bob Dylan “nunca acredites em quem tenha mais de trinta” ou a Mulher de 30 anos, romance que Balzac escreveu nos anos 1830 e cuja conclusão pungente antecipa o que os economistas chamariam um ciclo vital. Tal como o do ciclo vital é hoje bem mais longo do que no tempo de Balzac, os ciclos da história pátria e o lugar que nela ocupam as mudanças não constitucionais de regime político também se alongaram. Segundo a célebre frase de Chou-en-Lai, “ainda é cedo” para avaliar a revolução francesa,

Em França contudo as divergências sobre os eventos iniciados em 14 de Julho de 1789 são guardadas para salões elegantes e têm mais a ver com a genealogia do que com a política: os franceses aceitam a revolução mas não gostam de a avaliar, nem pela esquerda (saudades de Gráco Babeuf e do seu efémero babovismo) nem pela direita (seguindo o que a Srª Thatcher chamou em 1989 “that bloody affair”).

Será que a polémica caseira à volta da falta do R em “evolução” é a nossa maneira de ser franceses, trinta anos depois? É difícil excluir a hipótese, tal a osmose da cultura política com os vizinhos de além Pirinéus, pelo menos assim afirma o tio Gráco...

O R faz falta, tanta falta que queria dois Rs, revolução e revisão. Eis porquê.

A revolução de Abril levou a um recuo, sem paralelo na Europa ocidental, da interdependência econonómica internacional penosamente construída depois da segunda guerra mundial, com mérito singular para algumas figuras da oposição democrática. Além de económico, o recuo chegou a ser geopolítico. Para não alinhar no diapasão leste-oeste, houve que abraçasse o terceiro-mundismo, com destaque para o modelo peruano. Passaram no Centro de Sociologia Militar da Calçada das Necessidades economistas famosos como o marxista americano Paul Sweezy e Serge-Christophe Kolm, do Ponts et Chaussées, que recomendou a desvalorização do escudo em princípios de 1975, mas não foi ouvido. De qualquer modo, a Europa esteve connosco logo a seguir com o famoso seguro contra a ditadura. Só que o governo não curou de inverter o recuo na interdependência, antes o exacerbou com programas de ajustamento externo que sacrificaram as empresas e as famílias à voracidade de interesses “sentados à mesa do orçamento”, como o tio Gráco ouvira dizer ao pai dele durante a monarquia.

Mau grado a adesão à Comunidade Europeia em 1986, só terminou por altura do bicentenário da tomada da Bastilha, naquele verão de 1989 em que na Polónia e na Hungria se antecipava a queda do muro de Berlim e a nossa constituição continuava, impávida e serena, a proibir as privatizações a quem chamava cinicamente “conquistas irreversíveis dos trabalhadores.”

Por isso é que o R de revolução deve sempre alinhar com o R da mãe de todas as revisões constitucionais. Qualquer que seja o ritmo das reformas estruturais que esse segundo R permitiu (e sabe-se que foi trepidante em áreas como a liberalização financeira), nos primeiros quinze anos depois de Abril a economia foi sujeita a uma governação que tirava com uma mão o que não dava com a outra. O enviezamento para o deficit esteve connosco, ainda mais do que a Europa era suposta estar nas eleições de 1976. Mas talvez o ciclo vital obrigue a governação a hipotecar o futuro, como previam, cada qual a seu modo, Balzac e Dylan. Se assim for, há que para exportar os dois Rs para a Europa do leste que finalmente adere, para o Mediterrâneo mais próximo e para tantas economias emergentes. Como nos Lusíadas, “cantando espalharei por toda a parte”...