ECONOMIA SUAVE

BLOCO DO -ISMO

Jorge Braga de Macedo

Pessoas que fazem o favor de me estimar pediram-me para participar numa mesa redonda na Feira do Livro para a qual Eduardo Lourenço havia sido convidado mas não podia estar presente. Parece bem debater com amigos e outro doutor em economia por uma universidade lisboeta.

Aceitei, embora me parecesse mal o título Europa, Portugal e os pós-colonialismos.

Vale a pena citar aqui o relato do Público do mesmo dia em que saiu nesta coluna a sinopse da minha intervenção, intitulada Lusofonia global. Quer o título da secção Cultura referente ao acontecimento, “Pós-colonialismo é o que um homem quer”, quer o “lead”, “Debate permitiu conhecer uma visão pessimista, outra optimista, uma antiamericana e outra antifrancesa sobre neocolonialismo”, mostram que houve  –ismos a mais.

Iniciativas como o Conselho Empresarial da CPLP, cuja escritura foi assinada ontem, ou o Forum económico sino-lusófono, com secretariado em Macau, mostram ser possível olhar para assuntos globais com olhos lusófonos. Possível e porventura mais útil do que quaisquer ismos que se pudessem desencantar na nossa memória colectiva, que como se sabe os acumula em abundância.

Mas a lusofonia deixou indiferentes os muitos amantes de ismos presentes. O outro economista do painel, que chegou atrasado devido a uma votação em São Bento, confessou mesmo adorar -ismos e não querer saber da CPLP. Instado, recusou uma sabatina lusófona – oferecida com boa vontade.

Só me restava interceder junto de Avelino Crespo no sentido de poder insistir no tema sem delongas. Anuiu se calhar porque, há quinze dias, inaugurou o tema com uma oportuna referência à conferência anual europeia sobre economia do desenvolvimento do Banco Mundial, vulgo ABCDE.

Já aqui lamentei que a pobreza pare conversas entre financeiros, conservadores ou não, mas percebe-se que eles se não considerem capazes de resolver o problema. Agora o enfado lusófono nos meios progressistas, patente na mesa redonda do Parque Eduardo VII, carece de explicação cabal.

Será uma conotação de meninice (não ocorre dizer mocidade) portuguesa que leva progressistas caldeados pela guerra colonial a desculpar os governos dos países em desenvolvimento pelo mau ambiente institucional, não conseguindo lidar directamente com eles. Se não foi nesse tempo, qual terá sido o modo como capitalismo, imperialismo, fascismo, materialismo, idealismo, etc. formaram um bloco mental mais rígido que betão?

Quinze anos depois do fim da guerra fria, está vulgarizada a mensagem de que a abertura ao comércio internacional em bens, serviços e activos financeiros e o respeito dos direitos de propriedade, combinados no quadro de uma boa governação, permitem aos países mais pobres crescer mais depressa do que os países mais ricos.

Mas temos o nosso próprio exemplo. Embora muito ainda haja por reformar, também foi há quinze anos que se acrescentou a privatização à integração europeia e se conseguiu iniciar aquela combinação virtuosa. Isto graças à visão de dois economistas, que dirigiam os dois principais partidos políticos portugueses e quiseram superar a pesada herança das nacionalizações.

Dois anos depois de Monterrey, a mesma combinação virtuosa suscita esperança lusófona - do Brasil a Cabo Verde e de Moçambique a Timor – ao passo que -ismos enfadam, quanto mais em bloco!