Economia Suave

Barato sai caro

Jorge Braga de Macedo

Com a decisão presidencial de 30 de Novembro a ser decantada por governantes e governados, hesito em falar de economia, para mais mundial. Quando tocam a rebate os sinos partidários, quem ousa temer a insustentabilidade? Nas eleições para a presidência dos EUA, ninguém ligou à dívida americana nem à queda precipitada do dólar nos mercados cambiais. A indiferença à economia foi encorajada por ambos os candidatos presidenciais, mas o vencedor falou de valores, não de câmbios.

Ora, quase ignorado antes de 2 de Novembro, o dólar fraco enche os jornais. Todos os dias se lêem artigos acerca dos défices gémeos do orçamento e da balança de pagamentos. Assim é de facto. O valor dos activos americanos detidos por não residentes, deduzidos os investimentos americanos no estrangeiro, aproxima-se de um terço do produto interno bruto, como no México ou na Argentina antes da bancarrota. O endividamento cresce com o défice da conta corrente, colocado há anos na zona perigosa dos 5% do produto interno bruto. Depois de estimular o investimento, o défice externo financia agora um défice orçamental da mesma magnitude. Resultam níveis iguais do investimento e da poupança privada, ambos em queda. Parece o cenário clássico da crise financeira anunciada - mas há uma diferença capital. A dívida está denominada em moeda nacional, pelo que a depreciação do dólar melhora a posição líquida em vez de a piorar, como aconteceu com as divisas latinas.

Além disso, o défice corrente vai de par com a depreciação cambial – pelo que parece ter começado o ajustamento. Volta-se a citar esta relação de aceleração, com a qual Pentti Kouri contrariou a ortodoxia monetarista em 1975, para prever o aumento dos juros americanos e a queda do dólar, tendo Maury Obstfeld e Ken Rogoff actualizado as suas estimativas de 2000 para 20 a 40%. Mas há mais. Salientam que, em termos médios e descontada a inflação relativa aos parceiros comerciais, o dólar pouco depreciou relativamente ao valor registado há dez anos. E insistem que, sem uma diminuição sustentada dos salários americanos medidos em euros, não há ajustamento porque não diminui o consumo nem aumenta a poupança dos americanos. Ou seja, no resto do mundo, a produção de bens não transaccionados (sobretudo serviços) tem de aumentar o que representa uma ignição do crescimento na Europa, no Japão e nas grandes economias emergentes (Brasil, Rússia, Índia e China). Em suma, por mais suaves que sejam os mercados financeiros, não dispensam o ajustamento real.

O dólar fraco devia pois aparecer nas próximas eleições legislativas sob a forma de ameaça à nossa produção de bens transaccionáveis internacionalmente (exportações ou substitutos competitivos de importações), essencial para servir a dívida pública e privada, acumulada em consequência da boleia de juros de há dez anos atrás, que exacerbou a voracidade dos interesses instalados.

A convergência da produtividade dos bens não transaccionáveis, onde se inclui a administração pública, para os melhores padrões mundiais é uma condição para enfrentar aquela ameaça sem degradação do nível de vida da população. Os nossos concorrentes dentro e fora da zona euro estão a agir nas suas capitais e nos BRICs para beneficiar do aumento da procura não americana nos próximos anos. Assim manda a agenda europeia que dá pelo nome da cidade de onde partiram as naus para alguns dos BRICs.

Trágica ironia se, por causa de "não Lisboa", o dólar barato sair mais caro a nós do que a eles.