Economia Suave

Rating e Voting

Jorge Braga de Macedo

Na semana das eleições americanas, perdoa-se um título maioritariamente inglês: “juízo das agências de notação de crédito e votos dos eleitores” seria fastidioso, “juízo e votos” ambíguo. Tanto mais que os dois processos de apuramento de vontades colectivas parecem contraditórios.

Como o último Expresso noticiou na primeira página, o FT na página 4, o Ministério das Finanças comentou e o Público analisou, a agência Standard & Poor´s passou a perspectiva da notação portuguesa de estável para negativa. A S&P argumentou que o calendário eleitoral trepidante que se aproxima pode travar a reforma em curso da administração pública e que os défices orçamentais excessivos devem afligir os detentores de obrigações portuguesas: mais voting menos rating.

Por outra banda, Frank Partnoy, corretor da Salomon Brothers que virou professor de direito em San Diego, notava (FT de 20 de Outubro) que no segundo debates os dois candidatos presidenciais não se referiram aos mercados financeiros. O autor de F.I.A.S.C.O. e de Cobiça Infectiosa alvitrou que devia ser porque, apesar de Enron, etc. ambos aceitavam como boa a globalização financeira (ouvi falar em Ralph Nader?). 

Ora o juízo das agências de notação de crédito afecta eleições futuras tanto quanto é afectado por eleições passadas. Ou seja, para além de um ciclo eleitoral, mais voting, mais rating. A razão é funda: a classe média preocupa-se com a poupança ao longo do ciclo vital, e este inclui muitos ciclos eleitorais. Os países são pois degradados quando o aumento dos impostos necessário para equilibrar as contas públicas é considerado politicamente menos custoso do que a ruptura de pagamentos. Comparam-se esses custos introduzindo o equilíbrio geracional, que ocorre quando as gerações nascidas num ano de base pagam os mesmos impostos líquidos ao longo do seu ciclo vital do que as gerações presentes. Como aqui escrevi em 7 de Fevereiro (Amanhãs que custam), com a dívida acumulada e o envelhecimento da população portuguesa, havia que aumentar impostos de 4% ou diminuir despesas de 10% já em 1995. Desde que se fez a conta o desequilíbrio geracional aumentou e levou à ameaça de degradação da S&P para 2005.

Veja-se que na zona do euro, onde seis países têm rating de topo (AAA), Espanha, Grécia, Itália e Portugal (o chamado club Med) e Bélgica têm rating entre A e AA, três já sofreram deterioração nos últimos cinco anos. Para nós, contudo, a ameaça explícita foi notícia.

Como a nossa reputação financeira, perdida com as guerras liberais e a República, foi recuperada pelo Estado Novo, é politicamente correcto dizer que, em português, juízo não gosta de votos (ouvi falar de números versus pessoas?). Mais, receoso de empodeirar (como os brasileiros traduzem empower) as populações, Salazar não restaurou a convertibilidade cambial. Certo que o acesso das classes médias à moeda estrangeira passou a ser um facto há quarenta anos, pela via da emigração (exit em vez de voting). Porém a liberdade financeira só se juntou às outras com a revisão constitucional e o rating manteve-se baixo.

A S&P deu uma notação de A em 1988, que aumentou (para A+, o actual rating da Grécia) após as eleições legislativas de 1991 e no meio da recessão internacional de 1993 (para AA-, o actual rating da Itália).

Em 1998, já no euro, subimos para AA e houve quem julgasse que a globalização financeira faria o resto. E fez, mas só depois do “esticão do euro”. Agora volte o juízo, que o voto não tarda.

Por mais que isso custe a Frank Partnoy, entre rating e voting a classe média quer ambos, e em qualquer língua!