Medo da diversidade.

Jorge Braga de Macedo

30 de Outubro 2006

 

Não podia vir mais a propósito. No dia da primeira aula de um mestrado em desenvolvimento internacional frequentado por dúzia e meio de alunos de todos os continentes, o Financial Times trazia uma manchete alarmante: “Estudo de Harvard pinta quadro gelado da diversidade étnica”. Nos Estados Unidos, a diversidade cria tal desconfiança que atinge membros da mesma etnia. E não só em Los Angeles, a cidade do mundo com mais raças, mas também no Dakota sul, onde não se devem convidar suecos para um piquenique norueguês. Quando a diversidade pode perturbar o convívio entre escandinavos, como acreditar no presidente da própria junta de freguesia? Desconfiamos de tudo e de todos, incluíndo os jornais, transformamo-nos em tartarugas, declarou Robert Putnam, o cientista político autor do estudo Melhores juntos. Devia saber que é assim, pois foi ele que antes introduziu o conceito de “capital social” para ilustrar a coesão social.

Dois dias depois, veio o protesto do decano da Universidade inglesa envolvida no seguimento do estudo, salientando que, no longo prazo, se cria um novo “nós”. E é essa esperança que dá o título à conferência destinada a lançar um projecto conjunto das universidades de Harvard e Manchester: E pluribus unum, a divisa dos EUA que lembra como se fez um a partir de muitos!

Interessava reflectir nas consequências deste estudo para a diversidade étnica lusófona, porque a diversidade dos oito países da CPLP tem sido usada para explicar a sua fraqueza. Ora parece que a cimeira de Bissau e a declaração aí aprovada pelos chefes de estado e governo não se deixou contaminar pelo medo da diversidade, antes tentou dissolvê-la através do conhecimento mútuo, que transforma a diversidade em força.

Na verdade, conhecimento mútuo  aparece como elemento fundamental do acompanhamento dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio por parte da CPLP. Tal acompanhamento exige melhores medidas de boa governação nos estados da CPLP do as que tem sido possível coligir, como salientado num oportuno seminário patrocinado pelo IPAD.

Até porque ressalta que nos seis estados lusófonos frágeis (categoria que inclui mais de 70 países) a segurança e a capacidade em atender às necessidades básicas não destoam tanto da média como a legitimidade, bastante superior.

Ocorre perguntar: quem tem medo da diversidade lusófona? Ela existe quer entre os  oito países quer dentro de cada um deles – em graus quase tão extremados como Los Angeles (São Paulo?) e Dakota sul (Praia Grande, sendo os suecos da Ericeira?).

Não saberemos quem tem medo enquanto se brincar com a “CPL quê?”. Pior, ao transformarmo-nos em “tartarugas lusófonas, recearemos também a diversidade europeia.  Ou seja, a lusofonia ajuda mais os portugueses a ser bons europeus do que a pertença europeia nos aproxima da lusofonia.

Com medo da diversidade não há proximidade, apenas tartarugas orgulhosamente sós.