Oceano Branson

Jorge Braga de Macedo

25 de Setembro 2006

 

Em pouco mais de uma semana, prestei duas homenagens à memória de Bill Branson, colega distinto, amigo querido e homem bom, falecido em Princeton em 15 de Agosto passado. A primeira foi na Igreja de Colares a 8 de Setembro, e a segunda na capela da Universidade de Princeton, nos dois lados do Oceano que ele tanto amou.

 

Autor de contribuições decisivas na teoria cambial, conhecido de milhares de alunos em todo o mundo pelo seu cristalino manual de macroeconomia, Branson soube ser excelente na investigação e excelente no ensino. Foi o que, cada qual a seu modo, disseram os colegas e antigos alunos escolhidos pelos filhos para evocar a sua memória, com a música que ele gostava de ouvir: Eagles, Band, Beach Boys.

 

Nascido e criado na parte ocidental de Chicago (como recordou o seu irmão Michael), gostava desta costa ocidental da Europa que lhe devia recordar o seu tempo na Academia Naval e na Universidade de Berkeley, onde estudou a seguir. Depois do meu regresso dos EUA, visitou várias vezes a Faculdade de Economia da UNL e lá publicou trabalhos, o último dos quais em 1997. Por isso dediquei à sua memória um Working Paper recente sobre a  competitividade portuguesa na economia global, que comecei por apresentar nas Semanas Sociais de Braga. Na esteira da abordagem de meu pai à história da política externa portuguesa, interpreto ”diferencialidade” como “competitividade plus”.

 

Na verdade, o papel da política externa em credibilizar a política interna é uma constante da nossa história, tal como da de outros pequenos países. Com a globalização que apouca países (quase) todo-poderosos perante Portugal, como a França ou a Inglaterra, fica reforçado esse papel. A diferencialidade ainda é mais determinante com a vizinha Espanha, ponta de lança da nossa dualidade Europa/Atlântico.

 

Na década de 1970, Branson manteve um contacto estreito com a Faculdade de Economia da Universidade de Estocolmo. Ouvi-o muitas vezes citar uma expressão superlativa naqueles meios: alguém ser ”mundialmente famoso na Suécia”. Era como, numa interacção feliz, ser conhecido cá dentro e lá fora, presume-se que pelas mesmas razões. A ”competitividade plus”, dissecada naquele trabalho em sua memória, permite esta ilustração singela: conseguimos pensar em pessoas mundialmente famosas, e em pessoas famosas em Portugal. Quem será mundialmente famoso nesta costa ocidental da Europa?

 

O humor sóbrio do Bill era norteado pela vontade constante de divulgar a teoria económica. Para tal nunca desistiu de simplificar mais e mais, sem perder o rigor analítico, a que gostava de chamar honestidade intelectual. Juntas confluíam na generosidade, que continuará a inspirar todos os que conheceram o Oceano Branson.