China, Japão e lusofonia

Jorge Braga de Macedo

Quando, numa conferência na Universidade de Macau em Outubro passado, se chegou ao debate de parcerias sino-lusófonas em matéria cambial, o professor australiano disfarçava mal a sua irritação ao perguntar: “Afinal que tem Macau de lusófono?”. Lá se explicou – em inglês - que ele havia história, ele havia cultura, ele havia direito, ele até talvez houvesse confiança. O céptico dos antípodas podia ter argumentado que nem por isso havia conhecimento mútuo utilizável pelas comunidades lusófonos mas perante a explicação, oriunda de um mestre coimbrão, preferiu calar-se.

Mau grado o entusiasmo em prol da pedagogia lusófona, impunha-se algum cepticismo. Afinal, termina no século XVIII a única história partilhada, relativa a Cabo Verde! Em Macau, tal como em Goa, não se conseguiu acordar numa história aceitável para a região e os dois países. Como então abalançar-se a uma narrativa coerente acerca dos oito países membros da CPLP, tão diversos entre si?

Primeiro, entender que a diversidade, sendo conhecida, não é fraqueza mas força. Para enfrentar o desafio, podia começar-se pelas relações luso-brasileiras, a que poderíamos chamar pré-história da lusofonia, passando depois para as relações com outros seis países colonizados por portugueses, antes e depois das respectivas independências.

Segundo, vencer o preconceito disciplinar dito “história é só minha” com o seu corolário para o caso: “manual liceal nacional já é spam político, partilhado pior um pouco!”

Para tal, um exemplo oriental pode ajudar. Pouco antes da conferência de Macau, realizou-se na capital chinesa a primeira cimeira com o Japão em cinco anos e foi constituída uma comissão sino-japonesa de historiadores para, até 2008, identificar as questões bilaterais mais sensíveis. Na conferência de imprensa, a primeira pergunta foi sobre “percepção da história”. Shinzo Abe respondeu: “Os dirigentes chinês mencionaram o espírito de usar a história como espelho do progresso para o futuro (...) O Japão passou os 60 anos desde a guerra com um remorso profundo acerca do facto do Japão ter causado danos e sofrimentos tremendos aos povos de países asiáticos, os quais deixaram cicatrizes. Esse sentimento é partilhado pelas pessoas que viveram esses 60 anos e é um sentimento que eu também partilho. Esse sentimento não mudará no futuro.”

Como historiadores e arquivistas querem aproveitar o aniversário da saída da Corte para o Brasil para aumentar o conhecimento mútuo da tal pré-história, em 2008, duzentos anos depois da Corte, talvez cheguem às questões mais sensíveis para a história dos oito. Do mesmo modo, o relatório da comissão sino-japonesa poderia vir a incluir as Coreias e Taiwan.

Acrescento que, desde a conferência de Macau, o Financial Times escreveu duas vezes sobre história partilhada. Não admira: os mercados financeiros, através dos quais se transacciona com o futuro, têm longa memória.

Nota: Submetida uma versão mais longa ao blogue História Lusófona, disponível desde Outubro em www.iict.pt.