Mar da memória comum

Jorge Braga de Macedo

DN 12 Jun 06

Mar para três continentes e berço desde há dez mil anos de grandes civilizações, o Mediterrâneo está hoje no centro da insegurança mundial em vez de ser o símbolo pristino da unidade na diversidade. Para quem acredita que as civilizações se afrontam, tornou-se o mar de todos os choques. Para quem julga antes que a dinâmica social resulta de grupos concretos dentro das civilizações, o Mediterrâneo pode voltar a ser o mar da memória comum daquelas civilizações. A iniciativa americana dita “Médio Oriente maior” que queria juntar sul e leste do Mediterrâneo ao outro lado do Atlântico ia no sentido de restituir parte desta coerência histórica e geográfica – mas foi prejudicada pela ausência da Europa e pela guerra no Iraque.

Numa oportuna mesa redonda na Feira do Livro, organizada pela Câmara Municipal de Lisboa, onde foi clara a rejeição do choque das civilizações, recordou-se há dias o que meu pai disse em 1995: “o problema fundamental não é a universalidade mas a segurança dentro da comunidade”. E exemplificou com uma cena por demais mediterrânica: “O samaritano ajudou o judeu, em completo desinteresse pela natureza dele e pelo modo de ser do judeu. Quer dizer o conceito de próximo tem uma noção mais ampla que o conceito de civilização”.

O desprezo ao qual é votada a parte Sul do Mediterrâneo é estarrecedor para as elites de países que percebem perfeitamente a importância do desenvolvimento em democracia que, com as peripécias conhecidas, tivemos nas três últimas décadas. E como nós Espanha, Grécia, até Itália a quem se costumava chamar “club Med”nos círculos financeiros saxões.

Ora, mesmo não estando geograficamente nesse clube, ele interessa-nos sobremaneira, por ser um comparador óbvio. Mas tem-se feito o quê entre nós para que o Mediterrâneo não seja esquecido? Será que nos esforçamos para que o processo de Barcelona criado há dez anos deixe de ser uma minudência na construção europeia? Como reforçar esse processo e ajudar a democracia nos países ao Sul do Mediterrâneo? Será que nos preocupa sequer que o Mediterrâneo seja um mar esquartejado?

Em Histórica diplomática portuguesa constantes e linhas de força, Jorge Borges de Macedo defende que Marrocos é uma dessas constantes. Demonstra, em particular, que Portugal reflectia um interesse comum europeu no fim do século XVI ao preparar uma expedição militar. A batalha de Alcácer Quibir resultou de um imperativo de política externa, e a derrota tolheu a nossa diferencialidade política interna durante sessenta anos.

Para que nós compreendamos o que dentro de nós existe que é próximo do Mediterrâneo, temos que ser capazes de ser nós próprios. Ou seja, as opções de política externa portuguesa determinam a política interna. Por isso é bizarro que sucessivos governos se tenham interessado tão pouco pelo Mediterrâneo, mesmo o mais próximo.

A Espanha está muito mais presente no processo de Barcelona do que Portugal. Se soubermos pensar pela nossa própria cabeça em termos nacionais iremos ter muito mais interesse no Mediterrâneo e poderemos ajudar à progressão da democracia e do crescimento económico numa perspectiva de respeito pela diferencialidade, traço perene da nossa memória comum.