Lisboa sejas nipónica

Jorge Braga de Macedo

Este título ofende a gramática portuguesa minha amada mas é para honrar simultaneamente uma fadista lisboeta e um economista vienense. Há cinquenta anos, Amália cantou “Lisboa não sejas francesa” com o argumento definitivo “tu és portuguesa tu és só para nós”. No tempo desse fado, estava ainda para chegar a integração europeia, e o objectivo de fazer das economias das respectivas nações o conjunto mais competitivo do mundo em 2010. Mas, graças a Schumpeter, já se sabia que tal objectivo grandioso se atinge com a aplicação do conhecimento no processo de produção, ou seja com a inovação.

A meio do percurso, o objectivo decidido na primavera de 2000 mais parece o capricho do milénio do que uma decisão sisuda de quinze chefes de estado e governo reunidos em Lisboa. A concorrência era a economia americana, então a atravessar a bolha dos dotcoms, e a nipónica, a recuperar de uma bolha imobiliária que se julgava sem fim. Apesar de desequilíbrios globais que entretanto se manifestaram nas contas públicas e externas americanas, hoje Lisboa parece mais impossível que em 2000.

Espicaçadas pela China nascente, que se tornou o primeiro destino das suas exportações, e pelos outros BRICs cujos mercados imensos não param de crescer, as empresas nipónicas conseguiram recuperar a competitividade enquanto, ao longo de cinco anos, o governo Koizumi revelava um inusitado pendor reformista. Ao convocar eleições em Setembro de 2005 para obrigar o seu partido a aceitar a privatização dos correios entre outras reformas da administração pública, Koizumi revelou que elas eram incontornáveis, apesar da resistência virulenta dos interesses instalados – bem conhecida dos europeus em geral e dos portugueses em particular.

Mas é menos sabido que, por detrás da aposta que Koizumi ganhou, e independente dela, o Japão está a praticar Lisboa. Podíamos dizer, como no título, que Lisboa está a ser nipónica embora os japoneses não saibam disso. Apesar do aumento dos preços dos produtos petrolíferos em mais de 30% nos últimos meses, as empresas nipónicas conseguiram fazer descer em cerca de 5% o preço dos produtos electrónicos e até o dos automóveis. Isto mesmo foi demonstrado num estudo do Instituto de Política Pública século XXI, um think-tank privado (coisa rara no Japão).

Esse estudo foi apresentado na reunião da Comissão Trilateral inaugurada por Koizumi com a palavra de ordem: “Japan is back!”

Por casualidade, a reunião terminou a 24 de Abril, dia da cimeira EU-Japão. Num elegante discurso aos alunos da universidade de Kobe, o presidente Barroso lamentou que a agenda de Lisboa não tivesse sido posta em prática com a rapidez desejável. Felizes coincidências porquanto nos lembram que Lisboa está a ser mais nipónica que europeia, para não dizer portuguesa!

A experiência nipónica confirma que, uma vez lançada a onda reformista pelo sector público, fica mais fácil a coordenação entre empresas privadas. E revela ainda que, grandes anúncios mediáticos não substituem essa mesma coordenação. Como não há imitadores de Koizumi na Europa dos 25, o facto dos governos terem passado a ser responsáveis pelas medidas não acelerou a reestruturação industrial europeia.