Geração precária

Quiz o destino que estivesse perto da Sorbonne no Sábado dia 18 à noite. Testemunhei assim um dos afrontamentos entre polícias e manifestantes à volta da cerca metálica que veda o acesso ao célebre quarteirão. Ali mesmo, há quase quarenta anos, Danny “o vermelho” deu a palavra ao velho poeta comunista Louis Aragon em nome da liberdade de expressão, dizendo: “aqui todos podem falar - mesmo os traidores!”.

Como se sabe, Maio de 68 ficou na história socio-política francesa porque os referidos “traidores” se aliaram aos estudantes da vizinhança. Mais precisamente, os acordos de Grenelle enterraram a ilusão gaulista do franco forte e do pleno emprego – a primeira até ao euro, a segunda até hoje.

Puxada pelas exportações, a economia continuou a crescer mais uns anos mas com os choques adversos dos anos setenta, jovens sem qualificação e imigrantes foram sendo excluidos dos empregos que ainda pareciam seguros, porque os sindicatos do sector público achavam-se donos deles. Diz-se que foram trinta anos vergonhosos - a seguir aos “trinta gloriosos”.

Em Março de 06 continuam a manifestar os estudantes das redondezas da Sorbonne mas marcam presença jovens desempregados vindos das periferias onde habitavam os operários de Maio de 68. Desempregados da geração precária enquadrados por profissionais que provocam a polícia, a qual tenta não responder às provocações. Comenta-se que se passou de estudantes rebeldes para estudantes conformistas, que os pais dos actuais manifestantes lutaram por um mundo novo, mas a geração precária quer o mundo seguro dos avós. Concorda-se que o contrato primeiro emprego (CPE que permite despedir jovens durante os primeiros dois anos de emprego) se tornou pretexto.

Mas Maio de 68, como na altura notou Raymond Aron, prejudicou a empregabilidade futura dos quadros franceses. Se antes da revolução o que os estudantes aprendiam não servia o mercado, quanto mais depois ! A disfunção do sistema de ensino reflectiu-se em sucessivas tentativas de reforma travadas na rua mas, até agora, a violência urbana do ano passado tinha poupado o centro de Paris - e o seu capital turístico.

Quando a resistência popular à mudança faz cair governos, as reformas estruturais tornam-se precárias, quase furtivas. Assim aconteceu com o contrato de novo emprego (CNE), destinado às pequenas empresas, e que se diz ter criado centenas de milhares de empregos, muitos dos quais tão precários como os que o CPE pretende regular: mas não se tornou pretexto porque, ao contrário do CPE, poupou os sindicatos do sector público.

Só assim se explica ter-se ignorado a complementaridade das reformas estruturais, neste caso as incitações aos mais qualificados a procurar o primeiro emprego e aos menos qualificados a qualificar-se, como quer, em toda a Europa, a agenda de Lisboa cujo relançamento em Bruxelas assente na complementaridade das reformas estruturais se esperava para este Sábado mas que esteve quase ausente da discussão do Conselho Europeu.

Neste contexto nacional e europeu, a resistência popular ao CPE vai muito para além do seu desenho imperfeito e da ausência de concertação. Muitos estudantes, sobretudo os de gestão, criticam antes a timidez do CPE perante os desafios da globalização. Para Sarkozy, solidário mas diferente, executa-se o CPE durante seis meses, para ver o que dá. Reforma precária para a geração precária deixar de o ser? Apetece dizer só com Lisboa, e não é por ser alfacinha…

Jorge Braga de Macedo