Voar para o sol que temos cá

No último relatório sobre a zona do euro que Olivier Blanchard disponibiliza na sua página pessoal, há uma secção deprimente sobre a zona monetária não-óptima onde salienta a Itália e Portugal. Os dados acumulados 2000-2005 são reveladores: a sua taxa de crescimento foi de 6% quando a zona do euro cresceu 10%. Quanto aos custos de trabalho por unidade produzida (ctups), ainda é pior: aumentaram de 8% na zona euro, de 18% em Itália e de 23% em Portugal!

Mesmo que os dois países estivessem em equilíbrio macroeconómico no início do período, já seria significativa a diferença acumulada até 2005, correspondente a uma perda de competitividade relativamente à zona euro de 15% para Portugal e de 10% para Itália. Mas o relatório reconhece a ingenuidade do diagnóstico benigno (que Blanchard partilhou com Francesco Giavazzi) sobre o défice da conta corrente português, quando este atingiu o pico de 10% do produto em 2000.

Como escrevi ao entrarmos, para prevenir o “esticão do euro” eram necessárias “reformas estruturais (na justiça, segurança social, educação etc.) susceptíveis de aumentar a competitividade e a responsabilização empresariais. Como se sabe são reformas impopulares porque afectam privilégios de grupos bem organizados em benefício do bem comum e este governo tem-se revelado permeável demais a pressões corporativas”.

Ora, sete anos e outros tantos ministros das finanças depois, a imoderação salarial portuguesa relativamente aos concorrentes da zona euro tem conotações do gold rush dos anos 1850 na Califórnia ou na Austrália. Com uma taxa de câmbio real (medida pelo poder de compra dos salários sobre os bens e serviços objecto de comércio internacional) sobreavaliada, importa-se de mais e exporta-se de menos. Quando também aumenta a despesa pública (apesar da queda dos juros) e privada, temos “défices gémeos”.

Para restabelecer o equilíbrio macroeconómico e abrir caminho ao aumento sustentado da produtividade, há que encarecer os bens e serviços objecto de comércio internacional. Numa zona monetária não é possível desvalorizar, havendo pois que cortar os salários nominais. Para remediar o esticão do euro que se não conseguiu prevenir há dez anos, já não chega crescimento zero dos salários nominais.

Aquele mecanismo foi equacionada em 1956 num artigo sobre o mecanismo de preços e a balança de pagamentos australiana, escrito pelo prémio Nobel James Meade. E tem precedente entre nós: em 1983, o segundo programa de ajustamento com o FMI substituiu o 14º mês por certificados de aforro. Talvez porque “impossible n’est pas français”, Blanchard sugeriu a mesma dura cura na entrevista que este suplemento publicou há oito dias.

Em After the gold rush, o velho Neil Young queria que voassemos todos para “a new home in the sun“. Blanchard e Giavazzi querem que turistas mais velhos voem para o sol que temos cá.

É uma maneira de redescobrir Portugal que merece ser discutida.

Jorge Braga de Macedo