ECONOMIA, ÉTICA E SUAS IMPLICAÇÕES DE Política

Jorge Braga de Macedo

Neste fim de século, a degradação do socialismo e a clara percepçào, por quem nele vive, da escandalosa sociedade que origina, tornou-se o fènómeno social e politico mais grave do nosso tempo e o mais difícil de resolver. E a questão mais complexa e ameaçadora - pelos interesses ilegitimos que gerou - é a forma de a substituir, sem que isso envolva o regresso ao capitalismo, também amoral, mas, apesar de tudo, menos opressivo e mais capaz de dar garantias à autonomia dos homens, face ao poder.

Jorge Borges de Macedo,

in Portugal - Ano 2000, Lisboa: Intervenção, 1980, p. 146.

 

 

Foi no escritório do Pai, excepcionalmente deixado vago por quinze dias de ausência no Oriente, que teve lugar o meu primeiro contacto sistemático com a economia, durante as férias da Páscoa de 1968. Aí estudei a História da Análise Económica de Joseph Schumpeter, obra de eleição do saudoso João Lumbrales.

O fascínio com a história da disciplina continua, e convive com uma curiosidade interdisciplinar que logrou obter manifestações escritas. O objecto preferencial da curiosidade é o papel da política pública na economia, ou seja como "arrumar a casa" para a nação Estado enriquecer. A escrita foi ensaiada em artigos de divulgação, do «Suplemento Economia e Finanças» do Diário de Notícias ao Jornal Novo. A preferência revela-se nos títulos de artigos aparecidos entre 1972 e 1976, como: Ciência económica, ciência política e estádios do crescimento; Dependência económica e nacionalismo; Subdesenvolvimento e divida externa; O "triângulo dourado" da CEE; O problema da ajuda externa: A CEE e Portugal; O abstracto e o concreto do socialismo em liberdade; Mercado e plano. As manifestações académicas, essas, começaram no ano lectivo de 1976/77, dividido entre Católica, Nova e Yale e chegaram a 1991, dividido entre Berleymont e Terreiro do Paço.

 

Plano e Pobreza

 

Em resposta ao desafio de interpretar os «princípios gerais da organização económica» da Constituição Política da Repûblica Portuguesa, ousei contrapôr a análise económica da lei às crenças soviéticas em voga na altura da respectiva aprovação. Contra o bloqueio do plano, propus uma abordagem interdisciplinar, assente no método da análise económica mas que mistura as ciências sociais, como escreveria dez anos depois, no mesmo contexto.

Sem a aliança entre economia e ética que a análise interdisciplinar sugeria, resultavam da Constituição -mesmo depois da revisão de 1982 - implicações de política que mantinham a pobreza como bloqueio da sociedade portuguesa, porque o plano do Estado falha em economia nacional aberta. Tanto mais que a incapacidade do socialismo em «arrumar a casa» se agrava num espaço económico de mercado empenhado na abolição das fronteiras físicas e fiscais, como a que se verifica, desde 1986, entre as doze nações Estado da Comunidade Europeia.

Tinha-se entretanto instalado entre nós um literalismo constitucional, no qual o respectivo tribunal parecia comprazer-se, e que parecia elevar a vulgata marxista a fonte de direito. Rejeitada pela economia e pela ética, a ilógica do sistema constitucional português minava qualquer processo de desenvolvimento sustentado, assente nas reformas estruturais duráveis que os cidadãos desejavam e mereciam para enriquecer. A divergência portuguesa com os padrões de bem-estar europeus tinha implicações negativas em política que iam além fronteiras, e que se podiam aplicar às nações africanas que falam a mesma língua.

Sem análise interdisciplinar, a Constituição Política deveria pois figurar entre os « bloqueios da sociedade portuguesa». Era assim que se chamava o projecto de investigação da Fundação Oliveira Martins que patrocinou o escrito, posteriormente incluindo com esse título numa ampla colectânea publicada nas vésperas da revisão de 1989: Portugal - Sistema Politico e Constitucional 1974-87.

Pode dizer-se que, entretanto, se atenuaram as implicações de política de uma interpretação mais literal, no que toca aos « princípios gerais da organização económica» contidos na lei fundamental. Ainda assim, em vários aspectos específicos, a Constituição em vigor recolhe obrigações abstractas de solidariedade entre cidadãos presentes e futuros sem atender às necessidades e capacidades concretas dos contribuintes presentes e futuros. Enquanto resquícios socialistas da vulgata marxista, esses aspectos específicos podem ser combatidos através do recurso à análise interdisciplinar.

Mas se a revisão do Verão de 1989 atenuou as implicações de política de uma interpretação anti-bloqueadora da Constituição, a simultânea falência do socialismo na Polónia e na Hungria, tornada evidente meses depois com a queda do muro de Berlim, sugeriu novas e promissoras aplicações da análise interdisciplinar dos regimes económicos e das suas mudanças, na Europa e na África, de Norte a Sul.

Restaurada a liberdade na Europa central e oriental, rapidamente caiu a fachada de prosperidade e coesão com que queriam esconder o império de Moscovo. Encarregado pela Comissão Europeia de estudar essas economias para efeitos de ajuda à sua transição do plano para o mercado, não pude deixar de usar a experiência portuguesa e africana. Ao contrário do que se passava nas nações Estado que conhecia, a pobreza havia sida escondida pela cultura económica socialista, de Praga a Bucareste - ou a Riga.

É impossível negar o beneficio da melhor informação sobre a riqueza do mundo. Mas não se pode esquecer o custo em vidas humanas e no desperdício que representam os muitos milhões de pessoas que a nova ordem mundial e europeia se está a revelar incapaz de empregar. Com a nova pobreza a Leste, também a insegurança voltou ao continente europeu, entretanto a braços com a pior recessão desde os anos trinta.

E se a queda do muro revelou um maior âmbito geográfico da pobreza na, Europa, não diminuiu a sua indispensável dimensão histórica nem tão pouco fez desaparecer a questão do Estado nas nações pobres, para citar títulos de uma conferência pluridisciplinar organizada na Católica em fins do 1985. O organizador, João César das Neves, voltou ao tema na sua tese de doutoramento: Da validade científica do conceito de equilíbrio de pobreza. Fiz o mesmo ao prefaciá-la em princípios de 1990:

Os vinte anos passados confirmaram que o processo de desenvolvimento económico pode ser ajudado pelo Estado, mas que essa ajuda deve ser moderada, até porque a mobilidade a isso obriga. Mobilidade intersectorial ou internacional, do trabalho ou do capital, pouco importa. Mesmo que ela não exista hoje, a sua expectativa gera processos cumulativos de enriquecimento e empobrecimento que são outras tantas histórias com o tempo ao contrário.

Embora ainda esteja fora dos manuais (incluindo a Economia 10 de Pedro Arroja com um ataque forte à cultura económica socialista que tem imperado no liceu), a pobreza desvendada das economias socialistas é claramente apreendida pela análise económica do «equilíbrio de pobreza». E o mais grave éno efeito perverso da história da falsa riqueza que o socialismo tentou internacionalmente associar a si próprio.

Ao associar o fim da pobreza a uma organização socialista abstracta, a vulgata marxista retirou a esperança ao homem concreto. Ao poluir a riqueza material com o egoísmo e a cobiça, tornou-a tão devoradora como a ansia de luxo o foi para Emma Bovary. Esta personagem literária do século passado, que deu origem ao bovarismo, mantém actualidade. Existe um exibicionismo social, por vezes ligado à amoralidade do capitalismo, mas que é melhor qualificar de bovarista. Esse exibicionismo é devorador na medida em que ameaça a crença numa vida melhor, económica e eticamente. E a destruição da inevitabilidade histórica exige que se acredite. Por isso concluía o prefácio à tese sobre o equilíbrio da pobreza que:

[...] não se pode escapar à armadilha da pobreza sem ousar enriquecer. E para que uma nação pobre ouse enriquecer é preciso que ela espere um futuro melhor. Na parte que nos toca, Portugal poderá ter passado da eurotimidez para a lusoconfiança, embora uma reversão não seja de excluir.

Foi também nesse extraordinário ano de 1990 que a sugestão de novas e promissoras aplicações da análise interdisciplinar se misturou com reflexões sobre os fundamentos da economia e as suas implicações de política em termos globais - e ao mesmo tempo nacionais. A mistura vem no questionário preparatório de um colóquio realizado no Vaticano a 5 de Novembro, no âmbito da preparação do centenário da Encíclica Rerum Novarum - dada no primeiro de Maio de 1891.

 

O Questionário do Vaticano

 

A vitalidade dessa mistura entre as aplicações da análise interdisciplinar e os fundamentos da economia - mistura a que a história da análise económica procede naturalmente - resulta do questionário mas mais ainda da Secção 59 da Encíclica Centesimus Annus, justamente realçada pelos organizadores do colóquio do Vaticano na introdução e no prefácio das respectivas actas, intituladas Aspectos Sociais e Éticos da Economia. Referindo-se à doutrina social da Igreja, diz a referida Secção:

Para encarnar melhor nos diversos contextos sociais económicos e políticos em continua mutação, essa doutrina entra em diálogo com diversas disciplinas que se ocupam do homem [...]

A par desta dimensão interdisciplinar, aparece depois a dimensão prática e em certo sentido experimental desta doutrina. De facto, ela situa-se no cruzamento da vida e da consciência cristã com situações do mundo e exprime-se nos esforços que indivíduos, famílias, agentes culturais e sociais, políticos e homens de Estado realizaram para the dar forma e aplicação na história.

As respostas ao questionário mostram bem como a interdisciplinariedade entre direito e economia pode ajudar a atingir a dimensão ética essencial da análise económica, em termos de tornar as suas implicações de política tão claras quanto aparecem na Secção citada. Sumariar as respostas vem tanto mais a propósito quanto é certo que, por iniciativa de Mendo Castro Henriques, participei numa celebração interdisciplinar do segundo aniversário da Centesimus Annus.

O questionário foi enviado a treze economistas: seis europeus, quatro americanos e três asiàticos. São eles respectivamente Anthony Atkinson, Jacques Drèze, Hendrik Houthakker, Edmond Malinvaud, Horst Siebert, Witold Trzeciakowski; Kenneth Arrow, Peter Hammond, Robert Lucas, Jeffrey Sachs; Partha Dasgupta, Amartya Sen, Hirofumi Uzawa. Profissionalmente, nove ensinam (três em Harvard, três em Stanford, um em Chicago, um em Lovaina e um na LSE), três são investigadores (França, Alemanha e Japão) e um era ministro do governo polaco.

São cinco perguntas, as três primeiras divididas em subperguntas. O grupo das duas primeiras perguntas é mais abstracto, tendo a ver com a relação entre economia e ética, ou entre mercado e plano, ou entre eficiência e equidade. O grupo das outras três, mais concreto, pretende avaliar o processo de transição do plano para o mercado, o diálogo Norte Sul e a dimensão ecológica do desenvolvimento.

Nesse contexto, aborda-se a questão dos programas de ajustamento estrutural dos paises em vias de desenvolvimento conduzidos pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial e também se discute o ritmo apropriado das reformas estruturais, em especial se um maior gradualismo é preferível ao chamado «tratamento de choque». Temas inseparáveis da experiência portuguesa, nomeadamente durante mais de dez anos de divergência socialista que se seguiram a várias décadas de divergência corporativa e colonial. Temas que exigem uma análise interdisciplinar susceptível de superar o desespero da pobreza, quer material quer moral. E, nos tempos que correm, o nosso tecido social já tem tanto a recear do exibicionismo bovarista quanto da exclusão e da marginalidade.

As treze respostas reflectem bem a diversidade de talentos consultada e desafiam uma arrumação fácil entre partidários do mercado ou da intervenção estatal, como possível base para inferir uma eventual distribuição política dos respondentes. Sabe-se que as treze personalidades representam um leque muito) diversificado de opções ideológicas, do catolicismo progressista de alguns ao agnosticismo conservador de outros. Todos reconheceram, porém, que a ética é essencial para a economia e que essa relaçào tem implicações decisivas quer para as medidas adoptadas frente ao desafio da «riqueza do mundo» quer para as escolas de pensamento económico. Falaremos destas, para depois evocar aquela.

 

Escolas e Resultados

 

Há escolas de pensamento económico tradicionalmente mais amigas da interdisciplinariedade do que os manuais da disciplina reconhecem. Desde logo, aceitam que os condutores da política pública, mesmo que imbuídos de espirito de serviço público, sào pessoas que maximizam o seu próprio interesse. Ligada à escola da « escolha colectiva», divulgada em Portugal num artigo muito citado de Aníbal Cavaco Silva na Revista Economia da Católica de 1978, esta visão tem implicações sociais decisivas para a provisão de bens colectivos através do imposto.

Resulta que a integração da pessoa num grupo social pequeno minimiza, através da responsabilização mútua, a evasão fiscal dentro desse grupo. A «pressão dos pares» é, deste modo, uma forma de integração social e cultural, uma forma de cidadania que legitima o tributo para financiar os serviços públicos. Só que, ao alargar o número de pares, perde-se integração social e cultural, ou torna-se menos concreta. A escolha colectiva oferece pois uma base forte para algumas das ideias contidas no capitulo V da Centesimus Annus sobre Estado e Cultura: é a nação-Estado enquanto espaço privilegiado para o consenso social, na luta contra a exclusão e contra o exibicionismo.

Também é relevante a «teoria econ6mica da política», que salienta a credibilidade das políticas económicas. Esta é inseparável das expectativas acerca do futuro, mas também depende do passado, na medida em que envolve a aquisição de uma reputação. A boa reputação beneficia toda a sociedade, e também naturalmente quem conduz a política pública, mas, por isso mesmo, demora tempo a adquirir e pode rapidamente perder-se.

Nessa linha, existem resultados recentes da chamada « economia pública descritiva». De acordo com essa escola, chegamos à conclusão que o voto democrático pode ajudar a minorar os efeitos da interdependência estratégica da actividade económica entre nações-Estados. Trata-se de resultado aplicável à interacção económica que envolve associações de várias entidades votantes, sejam elas conjuntos de municipios, sejam conjuntos de nações-Estados, como a Comunidade Europeia. A própria ordem económica aberta que se está a formar na sequência da queda do império soviético precisa de bens públicos, aferiveis pelo voto democrático à escala mundial - ou por organizações como as Nações Unidas.

A escola dos sistemas comparados parece menos fundamental do que estas análises interdisciplinares. É que, independentemente do sistema, a comparação do mercado como plano depende do preço da informação, que obviamente não é zero. Esse ponto é reconhecido em todas as respostas ao questionário. Ora, quando a informação tem um preço de mercado, ninguém compra o plano do Estado porque é caro demais. Mas, para a escola da informação imperfeita, o mercado também não estabelece um preço justo, porque a informação tem um elemento de bem colectivo. A eficiência exige pois a combinação entre mercado e plano, entre provisão pública e privada de informação. O resultado fundamental é que a combinação concreta deve adaptar-se à cultura, à nação-Estado e à respectiva política pública.

 

Contra a Poliarquia do Estado

 

Daí de novo a necessidade da análise interdisciplinar, como a que pretende descobrir a arquitectura dos sistemas económicos através do processo de decisão sobre se um projecto de rendimento incerto é bom ou mau. Nessa linha, a arquitectura dos sistemas económicos reduz-se a uma combinação entre métodos de avaliação de projectos de investimento. Nenhuma combinação consegue eliminar todas as imperfeições da informação porque o mercado - a que se chama poliarquia - está enviesado no sentido de aceitar maus projectos e o plano - melhor dito a hierarquia - tende a rejeitar bons projectos. Nesta abordagem, a organização social do mercado concorrencial descreve-se como agentes hierárquicos num ambiente poliárquico.

Não volto à linguagem de Joseph Stiglitz, por ter sido este professor em Yale e colega em Princeton quem - fora de casa - mais me marcou nas questões fundamentais da economia. Cito-a para mostrar ainda outra escola com passado em Portugal. Esta arquitectura dos sistemas económicos foi apresentada na Nova no Verão de 1984, e divulgada na Mão Invisível:

A sequência de avaliação dos projectos do sector público herdados do regime anterior não se configurou como uma hierarquia, antes revelou, cruamente o enviesamento do sistema poliárquico - a aceitação de maus projectos.

[...] se se reduzir a dimensão do sector público poliárquico que temos, haverá menos desperdício em maus projectos. Sendo as empresas privadas hierárquicas, por outro lado, não será de recear desperdício comparável no sector privado [...]. Para retoque do monumento, o Estado reduzido e mais estável poderia tornar-se hierárquico, sem prejuízo para os bons projectos privados.

A distinção entre poliarquia e hierarquia também teve eco num seminário sobre a Reforma do Mercado de Capitais promovido pelo Instituto Progresso Social e Democracia Francisco Sá Carneiro em Outubro de 1984. Na respectiva sessão de encerramento, disse o Governador do Banco de Portugal:

Eu próprio tive a desdita, porque não foi de meu agrado, de exercer funções ministeriais. E, em relação a certos projectos, que estavam condenados, quer por todas as organizações internacionais que os estudaram, quer por entidades nacionais responsáveis, tomei posição no sentido de suster esses projectos. Houve um colega meu, do Governo, que ficou preocupado e me diz: «Você toma já uma posiçào, vamos esperar um pouco mais...». Escrevi-lhe e disse-lhe: «Não se preocupe, não tenha qualquer problema. Porque, assim que nós sairmos do Governo, o meu despacho vai ser revogado». E foi! Logo o problema de poliarquia das decisões é um facto: o despacho foi revogado!

A poliarquia das decisões - ou, parafraseando o Governador e Ministro, o mercado dos despachos - era um caso em que as implicações de política da análise interdisciplinar pareceram mais óbvias do que a respeito do bloqueio constitucional. E, no entanto, os problemas tocavam-se: na instabilidade política medrava a instabilidade económica, o que retirava credibilidade a qualquer reforma estrutural durável, mesmo que não exigisse revisão constitucional.

Era tentador, nesse contexto, defender o «tratamento de choque» como única forma de conseguir instalar o reformismo desejado pelos portugueses. Na verdade, um gradualismo excessivamente lento fôra o apanágio da liberalização comercial interrompida pela crise do petróleo de 1973 ao passo que o período subsequente foi bloqueado por reversões económicas. Por isso a divergência económica socialista sucedeu à divergência política corporativa e colonial, e só depois da revisão constitucional de 1989 a convergência comunitária se tornou um desafio explícito para os cidadãos portugueses.

 

Cidadania e Riqueza

 

A cidadania - atributo dos «pares» que partilham a cultura nacional envolve, além do direito à justiça, uma quota de poder politico e de recursos económicos. O desenvolvimento da cidadania, ou da sociedade civil, envolve pois o respeito concreto dos direitos humanos, que inclui a democracia e a solidariedade.

Em princípio, o cidadão é contribuinte: goza de bens püblicos pagos pelos seus impostos. Daí uma tensão permanente entre pobreza e cidadania. Além das obrigações morais criadas pelas imperfeições do mercado, a desigualdade na distribuição do rendimento pode ocorrer num mercado perfeito e compete ao Estado minorá-la. Para alguns dos respondentes ao questionário, passar certo limiar de pobreza é mesmo uma implicação da cidadania.

Nesse sentido, os esforços internacionais para aliviar a pobreza terão sempre custos mais elevados se não apelarem para a cidadania de quem paga e de quem recebe. Os programas de redução da pobreza devem sempre ter em conta o custo para o contribuinte nacional ou estrangeiro. Só assim poderão evitar o desperdício que tantas vezes mina a sustentabilidade do próprio esforço de ajuda. Isso tem efeitos no próprio padrão de desenvolvimento do país que recebe, porque dificulta as reformas duráveis de que os cidadãos precisam para enriquecer.

Por isso nos programas de ajuda, deveria sempre haver uma análise do custo e do beneficio de cada uma destas operações. No fundo, trata-se da condicionalidade da ajuda. Portugal, aproveitando a experiência dos acordos condicionais com o Fundo Monetário Internacional, tem dado um papel de grande relevância à ajuda condicional no quadro das suas relações com a Comunidade Lusófona, especialmente africana. Neste momento, a própria Comunidade Europeia já está a fazer depender a ajuda concedida da verificação de condições levando a que o pais que a recebe adopte políticas contra o desperdicio. É um efeito de demonstração comunitária que importa salientar porque revela que, quando autêntica, a nossa experiência serve de exemplo. Pode mesmo dizer-se que esta abordagem económica da nossa política externa realça a interdependência entre os dois grandes valores da nação-Estado: a Europa e a língua, para chamar a manifestação mais recente da curiosidade interdisciplinar, incluída numa colecção de ensaios sobre a actividade do XI governo, Portugal em mudança, publicada nas vésperas das últimas eleições legislativas.

É que, sem condicionalidade, cái-se em situações perversas. Na Itália chega a dizer-se que a suposta ajuda do Norte rico ao Sul pobre tributa as classes médias do Norte para subsidiar os ricos do Sul, ignorando os pobres do Norte e do Sul. As implicações de política deste conflito entre economia e ética estão à vista.

Por isso se deve ter uma ideia concreta de democracia baseada na moralidade do sentimento de cidadania do pequeno grupo que cresce para a nação-Estado, mas que consegue manter a coesão do tecido social ao nível das famílias. Ora a coesão do tecido social, muitas vezes esquecida pelas sociedades ricas, continua a ser um ingrediente essencial do desenvolvimento sustentado.

Na secção 48 da Encíclica, define-se o papel do Estado na economia em termos que resumem o programa de governo de qualquer democracia desenvolvida, especialmente de qualquer uma das doze nações Estado empenhadas na construção de uma união económica e monetária.

A actividade económica, em particular a da economia de mercado, não se pode realizar num vazio institucional, jurídico e político. Pelo contrário, supõe segurança no referente às garantias da liberdade individual e da propriedade, além de uma moeda estável e serviços públicos eficientes.

Tal programa de governo consensual pode dar o examplo para abordar a pobreza do mundo em termos económicos e éticos. Neste contexto, é de referir a iniciativa de actualizar um «relatório Norte Sul» elaborado no fim dos anos setenta por uma comissão a que presidiu um socialista alemão.

Esse programa internacional para a sobrevivência foi elaborado logo antes da crise do petróleo de 1979, a qual deu lugar a uma recessão internacional que só depois de terminada teve um efeito retardado em Portugal, por via do Fundo Monetário Internacional. Mas o presidente socialista ignorou por completo a dimensão Leste-Oeste, baseando todo o trabalho da comissão na ideia feita de que o Sul queria ser como o Leste mas que o Norte (=Oeste) não deixava.

A nova comissão é presidida por um social democrata português e o novo « relatório Norte Sul», lançado num seminário realizado em Sintra em Maio de 1993, vai intitular-se «A Riqueza do Mundo». A iniciativa insere-se numa perspectiva de desenvolvimento global atenta à economia, à ética e suas implicações de política pública. Insiste, além disso, que a pobreza socialista desvendada renovou pressões xenófobas. Ora essas são bem diferentes do são nacionalismo enaltecido pela Centesimus Annus.

Também se lembra que, para uma nação-Estado enriquecer, não se pode fechar ao comércio internacional. Como, neste momento, o proteccionismo é uma ameaça das nações do Norte sobre as do Sul, pode impedir que um Estado nacional atinja aquilo que a Enciclica chama a paz verdadeira, que é o desenvolvimento. Além deste perigo, refere-se no mesmo sentido, a destruição ecológica e a explosão demográfica.

Pode dizer-se que esta convergência de conferências, colóquios e seminários reflecte a consciência daqueles que defendem um futuro melhor para cada homem, recordando com a secção 53 da Centesimus Annus que:

Não se trata do homem «abstracto», mas do homem real, «concreto», «histórico» [...].

 

Arrumar a Casa

 

A economia ajuda-nos a compreender a falácia daqueles que, estando sempre a invocar a solidariedade, na realidade não são capazes de a praticar. Nesse processo, a economia deve escorar-se na ética e na história, e projectar-se para fora de si própria. Ao fazê-1o, traz ao homem concreto a autoverificação des expectativas, nome da esperança que me sugeriu o « equilíbrio de pobreza».

Para o homem concreto, a solidariedade deve ter resultados. Ora esse necessidade de eficiência parece desesperante e por isso mesmo a principal implicação de política que retiro da ligação entre economia e ética é um apelo à esperança. Esta acaba sempre por ter uma expressão económica, entendida no sentido etimológico de "arrumar a casa", que é afinal, em termos de política, «pôr ordem na cidade».

Esta insinuação etimológica aponta claramente para o elemento interdisciplinar. Além disso, realça que a análise interdisciplinar, ao buscar o concreto, não deve nunca abandonar o rigor do método. E ai concordam todos os nomes referidos acima, além do criador de Madame Bovary, cujo rigor analítico invejava o próprio Eça.

Outra consequência imediata destas referências é que se não pode retirar da história da análise económica - incluindo a literária - qualquer ideia de que o egoísmo ou a cobiça são ingredientes essenciais de uma sociedade responsável e feliz. Pelo contrário, o postulado da selecção natural, e do incentivo próprio para a aprendizagem, insere-se num conjunto de « regras de cidadania» em que a minimização dos conflitos passa pelo respeito dos interesses legítimos dos outros. No limite, as regras do jogo de mercado não podem ser cumpridas sem honestidade e colaboração na sua execução que não desintegre o tecido social. Quer a indispensável dimensão histórica da pobreza, quer o exibicionismo bovarista têm a mesma implicação económica e ética: se for egoísta, aquele que é mais rico tornar-se-á mais pobre.

Claro que a essência do ensino e da boa formação assenta precisamente no comportamento altruista do formador, o que não exclui a prossecução do respectivo interesse próprio. É a conclusão final do colóquio do Vaticano e serve de esteio a esta homenagem ao Professor - que é também a saudade desse escritório concreto onde estudei nas férias da Páscoa em 1968...